Para parar de comer: estudos sobre jejum

Pelas minhas postagens (e minhas conversas atualmente) tem dado para notar como alimentação é um tema forte e constante na minha vida. Já falei de alimentação aqui, aqui e aqui, só pra dar uns exemplos. Nessa de entender a alimentação, um belo dia acordo sem querer comer. Mas foi um “sem querer comer” diferente. Não era falta de vontade, nem de fome, nem depressão, era apenas não sentindo que precisava do alimento aquele dia. Coincidência ou não, descobri pelo facebook que era o Mahashivaratri, que não significa muito para mim, mas que tem como descrição “um momento propício para a prática do silêncio e/ou do jejum alimentar e da oração”. Foi a primeira vez que conscientemente comecei a pensar no jejum, e desde então venho estudado sobre o assunto. Hoje, 3 meses depois, me sinto confortável em compartilhar o resumo dos meus estudos.

Interessantemente, o jejum é tratado de forma plural e é citado em todas as religiões que vi até agora. Vou tentar dividir os diferentes aspectos para ser mais didática.

Sagrado
O jejum sempre é tratado como um momento de comunhão com o divino, em qualquer que seja a crença: aparece no budismo, catolicismo, judaísmo, islamismo, em povos indígenas, na umbanda e no candomblé. E essa pesquisa não fui eu que fiz, está nessa matéria da Folha de S.Paulo. E em todas elas é um momento de renúncia do corpo terreno em favor de um elo espiritual, que lhe aproxima da divindade.

Mas não é só parar de comer. O jejum é visto como um momento de reflexão, que deve ser integrado com oração, meditação, intenção e dedicação. É um momento de renúncia “da carne”, do terreno, do passageiro para se preocupar com as necessidades superiores.

“E para que venhamos prevalecer neste mundo físico, no qual vivemos, temos que prevalecer, primeiramente, no mundo espiritual. Essa é a importância do ato de jejuar, e de fazê-lo não apenas abstendo-nos de líquidos, alimentos, audiovisuais, informações, música, literatura ou festas, mas também vigiando os nossos próprios pensamentos, palavras, atitudes, reações ou sentimentos, que tentam, a todo o instante, nos tirar do espírito e nos fazer ficar na carne (…)”
– Universal

O rabino Nilton Bonder lembra que alimentar-se é um processo que toma tempo (comprar, preparar, comer, guardar, lavar, digerir), e esse novo tempo livre é usado para dedicar-se ao sagrado. E o pastor confirma Antônio Junior, afirmando que “seu espírito fica desimpedido das coisas deste mundo e passa a estar tremendamente sensível“, sendo um período de elevação do ser.

É importante ter em mente, porém, que a prática do jejum, tanto por ser considerado de elevação como sacrifício, pode gerar ego e orgulho. Li recomendações de se fazer o jejum em segredo, porque é um momento pessoal, seu e de sua divindade, não existindo necessidade para se amostrar para o mundo a respeito.

“A vida não vem de comer, mas da fonte infinita que nos criou.”
Mário Sanchez

Mente
O Arte de Viver nos explica que a mente humana tende a criar padrões e se aprisionar neles. O jejum é uma forma de quebrar esses padrões. Mesmo as religiões também tratam o jejum como uma forma de sua força de vontade superar a sua vontade.

O professor Antonio José Valverde diz que é o “domínio sobre o corpo”. Flávio Passos, em seu curso para o Eduk, chama de “ferramenta de maestria da mente”.

É um forte momento de reprogramação mental. Se lembra de toda aquela reflexão falada na parte do sagrado? Também é válida aqui. É um momento de repensar seu corpo e sua relação com ele. O que estou comendo? Com que frequência? Por quê? Como?

Trazer esse ato tão cultural, social e arraigado como natural que é a alimentação para a consciência é uma ferramenta poderosa. Mário Sanchez chega a dizer que comer não é uma necessidade, mas um prazer e um vício, e que “ser escravo do corpo não é ser livre”.

Mas minha citação preferida e que me gerou mais reflexão é a seguinte (clique aqui para ver o texto na íntegra):

“Outra chave para não sentir fome foi praticar a presença. Isso significa estar inteiro na ação, sem se deixar levar pelos pensamentos do passado, do futuro ou da não aceitação do momento. Era um fato, eu não iria comer. Então, de que adiantaria pensar na última refeição ou na próxima?”
Carolina Bergier

Jejum é o velho verbo to be: ser e estar.

Corpo
Mas acredite, tem quem fale – e muito – do jejum sem citar aspectos além dos físicos! Tem toda uma literatura explicando que comer (pelo menos nos tempos atuais), na verdade, nos faz mal. A alimentação “tradicional” moderna é repleta de toxinas, nutrientes que não precisamos, anti-nutrientes e é excessiva. Ou seja, ao invés de nos nutrirmos, estamos apenas dando trabalho ao corpo para digerir um monte de coisas que na real nem usamos: ou são armazenadas ou são eliminadas.

Irene Bueno, em palestra para o SEMAV, lembra de mais um perigo da toxina: para poderem ser eliminadas, elas primeiro são colocadas em circulação e depois filtradas pelos órgãos excretores. Ou seja, mesmo que no final das contas ela saia, seu movimento dentro do corpo já é bastante prejudicial. Catia Simonato, em palestra do CINAI, fala ainda que nem sempre todas as toxinas são eliminadas, sendo, então, armazenadas.

E é Irene quem nos lembra: no jejum, o corpo não está descansando! Os órgãos que fazem a digestão são os mesmos que fazem a limpeza. E eles não param de trabalhar, apenas focam em uma só atividade. Por isso, para ela, não se faz limpeza através da comida, e sim através do jejum. Já percebeu que quando estamos doentes perdemos a fome? É um sinal do corpo de que precisa usar as energias para eliminar a doença, e não para digerir.

Mário Sanchez (que já citei mil vezes nesse post), tem um livro inteiro falando fisiológica, biológica e quimicamente sobre o jejum, chamado Jejum Curativo. Não vou entrar em detalhes (pra não alongar, e por não ter mesmo conhecimento para isso), mas o resumo do livro é que o corpo é capaz de reciclar quase toda a energia que precisamos para sobreviver. Por isso aquela citação anterior, de que alimentar-se não seria uma necessidade, apenas um prazer.

Vou pontuar o que achei mais importante do livro para esse assunto:

Resumo do livro Jejum Curativo:

  • Apenas 20% a 30% da energia que gastamos vem da alimentação;
  • No jejum, o corpo reaproveita e recicla tudo o que é capaz, sem o trabalho de eliminar o desnecessário;
  • A digestão é, na verdade, uma reação de anticorpos destruindo corpos estranhos;
  • O homem médio consome 6kg de glicose e absorve apenas 0,6kg. Os 9/10 restantes necessários para a sobrevivência é “criado” a partir da reciclagem;
  • Esse processo de reciclagem (ciclos automáticos) não ocorre quando as enzimas estão ocupadas nos processos digestivos e eliminatórios.

E vou citar um dado sem referência, porque não lembro exatamente em que palestra eu vi, mas era algo do tipo de que 50% da energia gerada pelo corpo é gasta na digestão. Não é meio redundante?

“Jejum é dar tempo, energia e recursos para o organismo.”
Irene Bueno

Um corpo que não está preocupado em digerir, armazenar e eliminar fica livre para utilizar sua energia onde mais precisa, seja para manter a saúde ou para eliminar as toxinas.

Cuidados
Quer começar a jejuar agora? Hahah te entendo! Mas percebeu que em nenhum momento expliquei como fazer o jejum? É porque o jejum é perigoso. Irene Bueno foi extremamente eficaz em me deixar com medo depois da sua palestra. O jejum é um momento de desprendimento e eliminação de toxinas, e a depender da sua alimentação nos últimos anos, elas podem ser muitas! Se fizer sem cuidado e orientação, pode haver reabsorção delas.

Aprendi também uma nova definição:

“Doença é uma crise de eliminações.”
Irene Bueno

Imagina então o mal que um jejum mal feito pode fazer?

Tanto Irene como Mário como o Arte de Viver falam que o jejum precisa de uma preparação dietética e psicológica prévia, e precisam de orientação e cuidados médicos antes, durante e depois.

Além disso, cada momento de desintoxicação é único e pessoal. Depende dos seus hábitos e do seu corpo. Muda de pessoa para pessoa, e de momento para momento. Uma coisa é você hoje que come no McDonald’s 3 vezes por semana, outra coisa é você daqui há um ano que come a salada no lugar da batata frita. Ou seja, não há receita de bolo.

E saiba que voltar a comer é mais perigosos que parar de comer. O corpo vai reagir como um choque. Lembre de pensar nesse momento também.

Se pretende mesmo começar a jejuar, estude bastante e procure auxílio médico para prosseguir. O jejum é uma ferramenta poderosa que precisa ser praticada com responsabilidade. Por isso tudo, ainda não passei efetivamente para a prática. Mas vai ter post completo quando isso acontecer, rs.

Por fim, o jejum não pode ser visto como um castigo. É uma escolha, uma prática, um cuidado consigo mesmo e um espaço de apreciação e contemplação. Não se jejua sem motivo.

“Vamos seguir o jejum em um espaço de consciência, alegria e generosidade.”
Arte de Viver

Referências:

Sagrado:
Jejum que agrada a Deus
Como e por quê fazer jejum
– O que é jejum e por quê praticá-lo
– Como fazer jejum
– Desejos do corpo são eliminados pelo jejum

Mente:
– Fazendo jejum durante o Navratri
– O que aprendi ao fazer jejum

Corpo e Cuidados:
– Livro Jejum Curativo de Mário Sanchez
– Palestra de Catia Simonato para o CINAI
– PalestraIrene Bueno para o SEMAV

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Um comentário sobre “Para parar de comer: estudos sobre jejum

  1. Adorei o texto Lu! Fazer um jejum (mesmo que tenha sido da maneira errada rs) me fez mudar minha visão sobre a necessidade de comer.. Me senti muito melhor após a minha primeira experiência.
    Estou muito feliz com seus posts, vc tem talento!

    BJ’s e muito obrigada

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