“O Despertar da Primavera” e a opressão da sexualidade

Amanhã estou estreando no teatro com uma adaptação de O Despertar da Primavera, do Frank Wedekind. A peça foi publicada em 1891, mas sua primeira atuação só foi realizada em 1906 – tendo sido censurada, obviamente. Isso porque a peça critica a sociedade alemã do fim do século XIX, fundamentada em uma cultura opressora da sexualidade.

Embora escrita há mais de 100 anos, esta peça pode ser considerada atemporal. Isso porque – infelizmente – todos os temas abordados ainda são bastante presentes a sociedade. Uns com uma faceta diferente, mas a maioria exatamente da mesma forma. E no contato profundo que tive com essa obra, recorrentemente me vinha à cabeça o questionamento: “em quê evoluímos?”.

Na peça, a personagem Wendla levanta o seguinte questionamento à mãe:

“Eu tenho uma irmã que está casada há dois anos, eu mesma sou tia pela terceira vez e não faço a menor idéia de como as coisas acontecem…Não fique brava, mãe. Pra quem eu posso perguntar, se não for pra você? Me responda, mãe, me responda. Como é que acontece? Eu tenho quatorze anos. Com quatorze anos ninguém mais acredita nessa história de cegonha.”

A mãe, envergonhada, não tem capacidade de tocar no assunto de forma direta, e seus rodeios acabam trazendo sérias consequências.

*Alerta de Spoiler*

A mãe diz que filho é consequência do amor entre uma mulher e seu marido, sem entrar em detalhes. Wendla acaba sofrendo um estupro, sem saber exatamente o que aquilo significara, e engravida. A mãe, ao descobrir, tenta inicialmente enganar a filha dizendo que ela tem anemia, mas acaba confessando a gravidez. Ela convoca uma pessoa para efetuar o aborto – sem explicar à filha o que é aquilo exatamente – e nesse processo Wendla acaba morrendo.

*Fim do Spoiler*

A questão é que hoje em dia esses tipos de casos continuam acontecendo. O acesso à informação se ampliou bastante… e esse trouxe um novo problema. Passa a se ter tanta informação que é difícil o controle e o filtro do que é útil, importante e verdadeiro. Assim, o papel de abertura familiar para tratar assuntos da sexualidade se tornam ainda mais importantes. É fato que a maior parte dos adolescentes vai recorrer aos amigos – evitando certos julgamentos – mas a quebra desse tabu dentro de casa ajuda a se acompanhar um pouco do andamento da vida dos filhos.

E o problema se amplia absurdamente quando ao invés de uma omissão, há uma repressão. A abertura desses tópicos permite que limites sejam discutidos a partir de conversas, e que argumentos sejam expostos. Ainda que boa parte dos jovens tenha o perfil de se rebelar pela pura rebeldia, algo da conversa ficará na mente perturbando-o de alguma maneira. Repreender sem algum embasamento só pode trazer duas consequências (i) ou a submissão, na minoria dos casos; (ii) ou o completo descaso e a entrega total ao objeto de proibição.

Outro personagem com um background intenso e bem desenvolvido na peça do Despertar da Primavera é o Moritz. Perturbado pelos desejos aflorando na puberdade e criado em meio a um desconhecimento total acerca de questões sexuais, a única pessoa que ele tem como guia e inspiração é o seu amigo Melchior.

“Eu nunca senti nada assim antes – esse tipo de desejo, essa excitação insuportável. É insuportável. Por que não me deixaram passar por tudo isso dormindo e acordar quando já tivesse acabado? Meus pais poderiam ter tido cem filhos melhores do que eu. Mas eu estou aqui, o pior de todos. Sabe Deus de onde eu vim ou como eu cheguei aqui. Agora é assumir a responsabilidade por ter nascido. Você já pensou, Melchior, como é que a gente veio parar nesse redemoinho?”

Em meio a todos esses conflitos fisiológicos e psicológicos, Moritz é outra vítima da opressão social e da omissão parental.

*Alerta de Spoiler*

Ele acaba não conseguindo enfrentar esses conflitos, e passa a achar que sua vida não tem sentido (provavelmente frente à interpretação religiosa – que na época era muito intensa na Alemanha e a peça faz muita referência a esse domínio – de que a razão de existência do homem é a procriação) e comete suicídio com um tiro na cabeça.

*Fim do Spoiler*

Embora pareça muito distante essa ideia de que alguém possa não saber como se faz um filho ou o porquê de o corpo reagir estranhamente (no caso da ereção masculina) a certos impulsos visuais ou da mente, esse desconhecimento ainda persiste em alguns locais.

Uma amiga minha que é médica em Recife já me contou do caso de uma menina de uma cidadezinha do interior de Pernambuco – de 21 anos – que apareceu para fazer um exame e descobriu que estava grávida, ficando desesperada (porque ela havia casado há menos tempo do que o tempo de gravidez). Ao ser contestada por minha amiga se ela não usava métodos contraceptivos, ela assumiu que desconhecia o que eram. Explicado, ela falou tinha conhecimento da existência de camisinha, mas não sabia a dinâmica por trás disso, e nunca tinha ouvido falar em anticoncepcional, tabelinha, etc. Confessou que foi criada sempre dentro de um ambiente muito restrito, que havia sido educada em casa e que sexo nunca foi assunto para uma mulher discutir.

Essa jovem, por exemplo, poderia acabar tendo o mesmo destino da Wendla. Na verdade, não sei sequer o destino que ela ou seu(sua) filho(a) vieram a ter. Ainda que esses casos de desconhecimento atualmente aconteçam em um grau muito menor, o conhecimento incompleto ou errôneo é algo relevante a se discutir e preocupar, e as consequências são das mais diversas.

Como cada um trata sua sexualidade é uma questão individual. Mas é importante se ter a oportunidade de discutir e entender o que se passa porque essa questão individual traz inúmeras consequências sociais. Não sou pai e nem sei se um dia eu serei. Mas sou jovem, e vejo diariamente casos de suicídio, abortos mal realizados, homoafetivos no armário, meninas na prostituição; e isso não tem como não me preocupar.

PRECISAMOS QUEBRAR ESSES TABUS!!!

Aproveito para deixar aqui para vocês o link para leitura da peça O Despertar da Primavera.

E desejem-me sorte amanhã na incorporação do Moritz Stiefel! Hahaha Futuramente conto como foi essa experiência para vocês! 😀

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Um beijo enorme e uma ótima quarta-feira para vocês!

Créditos da fotografia do topo da página: Antônio Ferreira

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