Esperando o retorno de Jó

Por medidas de segurança queiram permanecer sentados com cintos afivelados até que os sinais luminosos tenham sido apagados.

A felicidade que essa frase me traz por ter completado uma viagem e chegado ao meu destino logo é suplantada pela agonia interna das pessoas apressadas que se levantam com o avião ainda em movimento. Essa atitude só me vem traduzida por dois elementos: falta de educação e impaciência humana. No último vôo que peguei, um rapaz de uns 40 anos na fileira 16 e uma mulher de uns 50 anos na fileira 9 se levantavam para pegar suas bagagens no compartimento enquanto a aeromoça ainda estava falando essa singela frase. Sem hesitar, ela gritou “VOCÊS PODEM PERMANECER SENTADOS, POR FAVOR?” e, ao passo que o rapaz retrucava, ela interrompeu dizendo “QUANDO O AVIÃO PARAR, O SENHOR PEGA. NO MOMENTO, QUEIRA VOLTAR PARA O SEU LUGAR E SE MANTENHA SENTADO”. Enquanto a mulher sentada ao meu lado julgava a forma ríspida como a aeromoça falou, no fundo imaginei quantas vezes ela não estava cumprindo esse roteiro e se deparou com pessoas ignorando regras e atuando conforme quisessem. A impaciência com a qual ela lidou com o fato – que não justifica, claro –, no fundo, veio em reflexo à impaciência dos passageiros de não conseguirem esperar até o pouso definitivo do avião.

Enquanto esperava a fila do Bandejão (Restaurante Universitário), comecei a refletir sobre o quão o mundo é impaciente diante de eventos corriqueiros do dia-a-dia. Enquanto alguns colegas vão pela tática do “deve ter algum conhecido ali pela frente” e acabam por se emburacar, eu fico no meu lugarzinho ao final da fila (que não demora muito para criar uma cauda ainda maior). O que penso é que se ninguém rompesse o sistema, a fila andaria num ritmo normal, e esse fluxo não incomodaria tanto quanto passar mais de 10 minutos parado no mesmo ponto da fila. Se essa interpretação se validaria, não sei, mas eu opto por acreditar nisto e uso meu senso de coletividade e o que tenho de paciência para praticar.

A questão principal é que, enquanto muitos defendem a depressão como o mal do século, acredito que a “impaciência” não está muito atrás disso. E embora tenha dado dois exemplos nos quais a falta de paciência alheia me incomoda, muitos são os casos em que sou seu sujeito. Fico impaciente de ter de enfrentar os conhecimentos básicos (e por sua vez gerais demais) do primeiro período da Universidade, ao me deparar com muito tempo ocioso disponível, ao ter de esperar nas filas de bancos, correios ou supermercados, de repetir algo já dito anteriormente para alguém que não prestou atenção…

A valorização que vem se dando ao tempo trouxe consigo seres muito mais completos. Enquanto antigamente as pessoas se contentavam com um certo limite de conhecimento e posição social e profissional, hoje o céu virou o limite, e a maioria das pessoas está buscando sempre mais. Com isso, o gasto de tempo em atividades não-produtivas se torna muito mais custoso. Mas o que seria necessariamente perda de tempo? É fato que o stress vem tomando conta das relações sociais, e essa eterna insatisfação fomenta o desenvolvimento de pessoas cada vez menos pacientes. É importante, assim, perceber que o tempo é uma arma poderosa mesmo quando gasto com atividades ínfimas e singelas, porque se você apenas se sobrecarregar de atividades pesadas, não só o corpo esgotará, mas também a mente. É importante saber o momento certo para se dar uma pausa, e deixar fluir toda carga emocional que o mundo empurra sobre nós.

A impaciência impede de vermos muitas das belezas no mundo ao nosso redor: nas pessoas, nas coisas, nos momentos… Ela fecha nossa mente da apreciação dos pequenos detalhes, pois só permite que nossa vida seja guiada pelos grandes feitos e acontecimentos. Mas o que seria das grandes missões sem seus objetivos específicos? Deixar os eventos fluírem ao tempo que lhes é destinado é importante e paciência é fundamental, porque sem ela poderemos até chegar em algum lugar: mas sem ninguém e sem nada.

Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela.” (Esopo)

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