stranger danger?

Timidez. Esse é o resumo da minha existência. Sempre fui aquela que não conseguia nem pedir comida por telefone, de vergonha. E meu corpo, não satisfeito, ainda fazia transparecer. Sou dessas que fica vermelha. Resultado disso tudo é uma vida com pouquíssima interação, evitada a todo custo.

Pois bem, isso é o que considero minha maior mudança provocada pela mudança de endereço: hoje sou capaz de falar com estranhos. Primeiro, trabalhei como garçonete e bartender, empregos em que sua função é justamente falar com estranhos. Segundo, morando numa república, tenho muitas roomates e que muitas vezes variam, não dá pra não cruzar com pelo menos duas pessoas por dia sem falar nada. Terceiro, trabalhando na ong, tenho que falar com muitos estranhos, e dessa vez, com tipos de pessoas mais variados dos que os frequentadores de bar da zona sul – e aqui o mais assustador pra mim, ainda tenho que dar opiniões.

Nessa última volta do sol, acho que falei com mais pessoas do que em todas as outras voltas que tive o prazer de vivenciar. Por isso, ouvi muitas histórias, conversas e sentimentos de todo tipo de gente, em todo momento da vida, com toda experiência possível e descobri uma coisa: somos todos iguais. As histórias se repetem, os momentos se repetem, os aprendizados se repetem, as pessoas vivem as mesmas vidas em momentos diferentes e é impossível não se identificar com pelo menos um traço de outro alguém.

O que tem me feito questionar: por quê não conversamos com estranhos? Por quê nos esquivamos até de pessoas que não são estranhas? Por quê nos distanciamos?

Tive uma experiência particularmente reveladora no primeiro encontro de voluntários da ong que participo. Eu, recém-chegada na organização, conhecia nada de pessoas e de informações, fui na cara e na coragem, muito pra testar minha capacidade de lidar com estranhos. Acontece que muita gente, por ser o primeiro encontro nacional, também não se conhecia. E ai aconteceu o que pra mim foi life changing: todo mundo conversava. Na mó de boas. Tinha conversa sobre trabalho, faculdade, música, biscoito, bolacha e póça [deus, porquê?]. Pessoas puxavam papo na fila da comida, no banheiro, na hora de encher o colchão… qualquer motivo era motivo.

Voltei desse final de semana bem inspirada [por um milhão de motivos diferentes], mas achei que esse negócio de ter rolado papo prum final de semana inteiro com desconhecidos, e sobrado, era porque todo mundo ali tinha pelo menos alguma coisa em comum: o trabalho voluntário. E achei que por o ponto em comum ser o voluntariado, essas pessoas tem mais tendência de se doar, e por isso era fácil conversar com elas. Esses últimos meses tem me provado errada.

Na verdade, não é errada. Não era por serem voluntários que as pessoas estavam conversando, era porque serem gente. Se vc parar pra pensar, no fundo, todos temos algo em comum com a pessoa que está do nosso lado. Sempre tem um ponto que nos liga, nem que seja sermos da mesma espécie. E quando leio textos maravilhosos e intimistas [como esse] e vejo tanta gente se identificando, lembro que somos sim todos iguais.

E isso trouxe minha nova obsessão de questionamento: por quê não conversamos com estranhos?

Espero que alguém possa me dar uma boa razão, porque ainda não encontrei nenhuma.

make-friends
Imagem de http://delimitlife.wordpress.com

 

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