A minha escolha por Psicologia na esperança de um Brasil melhor

Há pouco mais de sete anos, deparei-me com uma dúvida que muitos passam na vida: qual curso farei no vestibular? Muitas pessoas diziam que eu deveria fazer Ciência da Computação ou Jornalismo. Os que argumentavam pelo primeiro, recorriam ao meu vício de computador (e a construir fóruns de discussões, blogs, etc.), que consumia mais tempo do meu dia do que o ato de dormir. Os que sugeriam o segundo, traziam à tona meu vício em ler livros e escrever histórias, cartas, etc.

No fundo, eu era apenas um jovem de 17 anos que não sabia lidar com um conjunto de opções muito extenso. Entre Psicologia e Relações Internacionais – minhas reais escolhas –, acabei optando por Economia. O fato é que, recém-começado o 3º ano do ensino médio, a paciência para estudar química e biologia já tinha se esgotado completamente, e enfrentar um curso com específicas de saúde estaria fora de cogitações, por isso descartei Psicologia ainda que a área me despertasse muito interesse e paixão. No caso de RI, queria o fazer pela minha paixão por língua estrangeira, mas parei para pensar que meu interesse na relação de países está muito mais ligado ao âmbito econômico do que ao político. Finalmente, minha paixão por matemática e a perspectiva de emprego consolidou a escolha pelo curso de Economia, o que não me arrependo. O curso foi fundamental para desenvolver meu pensamento analítico e muitos dos conceitos que aprendi utilizo bastante em minha vida.

Entretanto, passado este tempo, minha interpretação do mundo mudou bastante, e percebi que viver como economista não me traria a satisfação pessoal que eu buscava. Antes entendia como sucesso ter uma carreira consolidada, trabalhando bastante e tendo retorno financeiro por isso. Hoje julgo outros fatores como mais importantes para minha satisfação pessoal, e a perspectiva de mudar um pouco este mundo tão caótico em que vivemos hoje é um deles.

Ao ler a biografia “Redefining Realness” da jornalista e ativista transgender Janet Mock, estando na época ocorrendo a Pride Toronto (duas semanas inteiras de eventos ligados à comunidade LGBTQQIP2SAA1), tornou-se ainda mais nítido para mim como o Brasil tem um atraso cultural no debate de sexualidade e questões de gênero, fomentando a marginalização das identidades menos compreendidas. Esse foi o meu motor na decisão de correr atrás do meu sonho antigo de cursar Psicologia, e não teria disciplina específica nenhuma para me impedir disto. Se eu não puder contribuir na abertura da mentalidade do brasileiro nesses termos, não me faltarão questões sociais para trabalhar e tentar fazer o diferencial2. A conjuntura das escolas públicas, a inclusão de pessoas com deficiências, o uso desenfreado de drogas, etc. O fato é que eu tive a oportunidade de passar um tempo em um país realmente desenvolvido, onde as coisas funcionam plenamente, e meu regresso só poderia trazer duas possibilidades: (i) entrar em uma fase de negação eterna e só estar satisfeito quando colocasse finalmente os pés fora daqui; (ii) aceitar as condições em que vivemos hoje, e tentar fazer minha parte para mudar isso. Atualmente, estou lutando por esta segunda linha.

Quero ver um país que respeite as diferenças; que deixe a esquerda livre para quem precisar correr; que espere o outro sair do transporte para então entrar; que peça “com licença” e dê “obrigado”; que se desenvolva, mas sabendo a importância da natureza e paisagens naturais lindas que têm; que suas mulheres tenham possibilidades de emprego iguais às dos homens; que aos índios seja não só preservado o espaço, mas dado voz e oportunidades; que negros possam andar de bermuda e sandália sem serem encarados ou mal vistos; que um casal possa se abraçar na rua seja ele qual for; que as definições de família sejam atualizadas… enfim, posso querer muito, mas não quero nada impossível de se alcançar. E cabe a nós cair na real de que muito tem a se melhorar, mas não perder a esperança. Porque cada um tem papel fundamental na construção dessa sociedade, e nós iremos chegar lá. =)

Respeito

1 Embora o acrônimo LGBT seja mais utilizado para deixar a leitura mais fluida, o acrônimo LGBTQQIP2SAA é atualmente o mais correto para utilizações, por englobar Lesbians, Gays, Bisexuals, Transgenders, Queers, Questioning, Intersexes, Pansexuals, 2-Spirits, Asexuals e Allies (referente a todos que apoiam a comunidade, sem necessariamente “fazer parte” desta).

2 Deixando claro que isto é algo bastante pessoal. Obviamente o trabalho como economista também permite atuar em muitas mudanças significantes na sociedade, eu apenas não me via fazendo isto com o ferramental econômico, e por isso optei por ir atrás da Psicologia. Sei que com o tempo nossa cabeça muda durante o curso, tanto em termos do que se é possível fazer, quanto do como fazer e o que de fato você quer, então deixo claro também que essa é a minha visão como estudante que sequer começou o curso, referente apenas às razões que me levaram a escolher esse caminho.

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