A encantadora dança dos salões

Sempre tive uma vida com um viés artístico muito presente. Lá pelo final do ensino fundamental, meu lazer favorito era pintar pratos e quadros (olhando retroativamente tenho a convicção que nunca seria pintor, mas na época eu achava que tava abalando). Já no ensino médio, gostava de compor musiquinhas com minha melhor amiga para nossa banda imaginária (e chegamos a gravar algumas – mas outra certeza que eu tenho é que nunca serei cantor). Nas férias do primeiro período da faculdade, aproveitando o tempo ocioso, escrevi um script para um curta que gravei com minhas amigas (isso após a tentativa frustrada de fazer um filme de assassinato à Agatha Christie – minha escritora favorita – com uma pegada sensual de cabaret, mas que fracassou por eu ter colocado 21 pessoas no roteiro – tornando praticamente impossível de reunir todos para uma produção amadora). Em agosto deste ano, criei disposição para embarcar em uma nova aventura – que desde o colégio me prometi que faria, mas sempre fui empurrando com a barriga – o teatro. Mas essa nova experiência ficarei de falar melhor em um outro momento.

Dentre todas as atividades artísticas nas quais já me envolvi, hoje optei por falar de um amor um pouco antigo: a dança de salão.4 - dança de salão

Dança sempre foi algo que me despertou muito interesse, e basta colocar uma música para tocar (seja lá o ritmo qual for) que eu não consigo me manter parado. Parece que os meus ouvidos se conectam com todo o corpo, e um mínimo de som já ativa pescoço, ombros, mãos, quadril, etc. Em março de 2009, acompanhando minha tia e meu primo, fui fazer uma aula experimental de dança de salão. Embora minha tia tenha servido como gatilho, a vontade de fazer aula de algum tipo de dança sempre existiu em mim, só precisava de um empurrãozinho. Tanto que minha tia acabou desistindo 3 aulas depois, meu primo persistiu por 2 meses mas caiu fora quando vieram falar para ele que dança era coisa de “bichinha” e eu fui o único que persisti dos três.

Embora ainda exista bastante preconceito com danças em geral, fiquei feliz de observar como existe gente distinta que abraça a dança de salão e como ela vem conquistando cada vez mais pessoas. No caso do meu primo, com seus 13 anos na época, a opinião alheia contava bastante e acabou servindo de empecilho para uma habilidade que ele tinha muita capacidade de desenvolver. Por outro lado, já vi alguns jovens nessa idade que estão firmes e fortes na dança sem ligarem para o que isso pode sinalizar para a sociedade, preocupados unicamente com o que a dança representa para eles.

E essa é uma das belezas da dança de salão. Não existe barreiras, não há distinções. Pessoas de diferentes gêneros, idades, classes, raças, credos, orientações sexuais (ainda que haja uma controvérsia neste ponto dada a heteronormatividade da dança), etnias (embora haja diferenças entre países, a base costuma ser a mesma), etc. se reúnem em prol de um ganho comum: compartilhar uma boa música transmitindo as emoções para o corpo. Um vídeo que traduz muito bem isso é o da senhora de 92 anos arrasando numa apresentação de salsa (o vídeo fez sucesso há bastante tempo atrás, mas o reencontrei no Youtube e, apesar da qualidade baixa, vale a pena assistir). Recentemente estive no Congresso Nacional de Tango, e tivemos a honra de ver, dentre outros milhares de tangueiros incríveis, uma senhora idosa que já não possuía parte da visão e dançava deslumbrantemente. Isso sem falar também das crianças de 7 e 8 anos em programas de TV norte-americanos que dão show de habilidade.

Assim, a única barreira que temos somos nós mesmos, e a necessidade de dar o primeiro passo e seguir adiante quebrando nossos paradigmas e vencendo nossas dificuldades. O começo de qualquer nova empreitada é sempre difícil, e na dança não é diferente. São muitos elementos para se preocupar – conduzir (no caso do cavalheiro), não pisar no pé da(o) parceira(o), estar no ritmo, atrelar passos à melodia, etc. – e você não sabe nem por onde começar. Mas assim como qualquer atividade, tudo que se precisa é de dedicação. E os avanços que tive de março de 2009 ao final de 2012 – quando tive que abandonar as aulas de dança (na época eu já estava como monitor) – foram estrondosos. Com minha pausa, muito do que aprendi foi esquecido. Mas a essência fica aqui, e nada como uma boa música e uma boa parceria para resgatar alguns desses conhecimentos.

A dança me serviu não apenas como atividade de lazer, mas contribuiu bastante para o meu desenvolvimento pessoal. Quando comecei, eu era uma pessoa muito tímida e contida. As inúmeras situações fora da zona-de-conforto que ela me colocou, desde o simples convidar alguém para dançar em uma aula ao temido se apresentar em um palco, foram muito importantes para meu processo de saída do casulo, deixando a timidez de lado e desenvolvendo minha autoconfiança.

E não se restringe a um desenvolvimento da autoconfiança, mas da confiança no outro também. Afinal, a dança de salão é uma atividade a dois, e a necessidade de estar conectado e acreditando no seu parceiro(a) é enorme. Isso me remete a outro ponto que acho deslumbrante na dança: as ligações sociais que se formam. Por estar sempre dançando com outras pessoas (e num contexto de aula ser corriqueiro a troca de pares), tive contato com muita gente diferente do meu habitual, e que eu provavelmente não teria a oportunidade de conhecer se não fosse por essas aulas. Assim, o conhecimento adquirido nas aulas de dança não se restringe à própria, sendo muito mais amplo com várias experiências de vida trocadas e compartilhadas.

Quanto mais eu escrevo, mais vou lembrando do porque a dança me cativou e me deixou apaixonado. Podes conversar com qualquer pessoa que se permitiu embarcar nessa aventura, e verás que não há como não se encantar. Encantamento este que podemos observar o desenvolvimento nítido no filme Dança Comigo, de 2004, com Richard Gere, Jennifer Lopez e Susan Sarandon. Não vou entrar em detalhes do filme, mas fica a dica para quem ainda não viu, pois é um retrato fiel do que mais se vê na arte: independente das razões que possam ter levado você para aquele mundo, a única certeza é de que, basta se permitir, para que isto mexa com você e transforme a sua pessoa.

Encerro esse post deixando com vocês um vídeo da primeira vez que pisei no palco para dançar. Foi uma apresentação de bolero em 2010 com a música Ne Me Quitte Pas interpretada por Maria Gadú.

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