Precisamos falar sobre melões

Ontem fui ao supermercado comprar batatas para fazer purê. Ao passar pela seção das frutas, aqueles melões bem amarelados olharam para mim. Pensei em quanto tempo fazia que não comia um melão e bateu aquele desejo, mas ao mesmo tempo receio: tenho vontades súbitas e intensas de comer melão, mas que passam totalmente após um prato de cubinhos destes, e aí durante semanas o restante fica esquecido na geladeira porque nunca é minha primeira opção. Dado seu tamanho, se enquanto vivia com meus pais – e Zezinha1 me ajudava comendo – a fruta de vez em quando estragava (e olha que melão dura bastante), vivendo sozinho o risco é ainda maior. Ainda assim, refleti que todo dia durante minhas madrugadas de insônia poderia me estimular a comer melão ao invés de biscoito, porque seria mais saudável2.

Ao passar no caixa, me deparei com algo que eu não esperava. DEZ REAIS E VINTE E CINCO CENTAVOS3! Eu tinha escolhido o menor melão, e pelos meus cálculos daria algo como sete ou oito reais. Mas foi aí que percebi duas coisas: (1) não tenho noção nenhuma de peso; (2) como melão é caro!

Não vou aqui começar a discorrer sobre as possíveis razões para este preço, pois meu tempo enquanto estagiário numa empresa de consultoria do mercado agrícola já passou. O relevante é que isso acendeu um botão de preocupação em mim, e imediatamente mandei uma mensagem de áudio no WhatsApp para minha mãe: “Desculpa por todo o dinheiro que fiz você gastar nos pedaços de melão que não comi :(”.

A questão é que viver sozinho lhe abre uma série de novas preocupações e dentre elas está o prazo de validade dos alimentos. Se a questão social e a preocupação com o estrago de comidas diante da sociedade desigualitária em que vivemos não é o suficiente, pelo menos o peso no orçamento pode abrir um estado de alerta para isso. Ainda que eu tenha permitido que frutas se estragassem em episódios particulares enquanto pequeno, à medida que fui crescendo comecei a ponderar mais minhas necessidades alimentares (tanto que durante certo tempo aboli o melão, inclusive, da minha alimentação – até o momento em que minha mãe passou a gostar dele também hahaha). Parte disso está na ênfase que se dá ao discurso “você vai estragar essa comida sabendo que tem gente na África passando fome?” referente ao prato de refeição, e aí enquanto criança você só pensa na réplica “mas a África é tão longe”. Crescendo, você começa a atentar que uma face da “África” está do lado de fora de sua janela.

A filosofia de evitar estragar foi tomando posse de mim enquanto princípio, mas uma vez que você vive com outras pessoas (embora quando sai de casa só éramos 4, já tivemos períodos de sermos 7 pessoas dentro de casa), a atenção para estes detalhes fica diluída. Hoje me considero muito mais consciente, seja por questões sociais ou por preocupação orçamentária. A questão é que é importante os pais incentivarem os filhos desde pequenos a se preocuparem com desperdício. Se o estímulo ao “pensar no próximo” não funcionar, uma tentativa é tentar fazê-lo refletir sobre os gastos. Levar para um supermercado e dar um “x” que ele pode gastar em itens (com restrições de compras balanceadamente nutritivas, claro), pode ir auxiliando a formação dessa percepção financeira pelo menos.

Seja qual for o motor da preocupação, o importante é que algo seja feito. Embora a teoria malthusiana4 não tenha se consagrado, vários recursos vêm se tornando cada vez mais escassos, e precisamos nos conscientizar de que todos nós temos responsabilidade sobre eles, sejam estes melões, tomates, ovos, peixes…

1 A pessoa com a risada mais sensacional e creditada informalmente por fazer o melhor feijão do Recife.

2 Para ler sobre algumas das propriedades nutricionais do melão: clique aqui

3 Preço do melão no supermercado em questão: 3,60/kg.

4 Caso não conheça bem a Teoria Populacional Malthusiana, não deixe de ler a respeito

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s