Dica literária – Fim, de Fernanda Torres

Oi gente, tudo bem?

Hoje eu vim falar para vocês de uma grata surpresa que eu tive recentemente. Já tinha ouvido falar por alto da Fernanda Torres como escritora – ouvido falar bem, inclusive – mas nunca tinha lido nada dela (e, honestamente, a internet tinha me afastado das leituras por prazer mais do que eu gosto de admitir).

Enfim, passei na saraiva há umas semanas e comprei o livro Fim da Fernanda Torres e amei. Coincidentemente (ou não) eu estava num período de limbo internético enquanto o li – tinha me mudado e estava esperando a instalação da banda larga no apartamento novo. O livro estava tão bom que, perto do fim, eu me obrigava a parar de ler para ‘fazer render’ as páginas que me restavam!

A história talvez não pareça tão interessante sendo descrita – minha roommate não demonstrou muito interesse pelo menos – o que talvez indique o talento da narrativa em si, transformar algo potencialmente banal numa experiência incrível. Começamos com um senhor bem amargurado (e desagradável) narrando, num fluxo de consciência, suas atividades corriqueiras, sua relação com a família e algumas memórias meio soltas, o que em poucas páginas culmina na sua morte. Então os personagens dessas memórias começam a surgir com vozes e visões próprias sobre os acontecimentos narrados, personagens centrais e secundários. Fica super interessante ver acontecimentos banais, importantes, constrangedores, de todos os tipos, narrados sob as óticas de todos os participantes.

Esse carrossel de perspectivas fica centrado em torno de cinco amigos: Álvaro, Ribeiro, Neto, Sílvio e Ciro.  Todos eles narram suas mortes e, através dos seus fins, relatam suas vidas, seus arrependimentos, seus questionamentos e seus momentos de esbórnia – porque a vida não é feita só de momentos Kodak e pensamentos profundos. O que eu achei mais lindo no livro é como os personagens são bem construídos: uma amálgama de características das pessoas, que tem lados bons mas também são tacanhas; se amam mas não sabem se amar ou se tolerar; tem mágoas e sentimentos mal resolvidos; as vezes são só execráveis e tem alguma consciência disso e em outras vezes são machistas, insensíveis, amorais…mas de uma forma tão autêntica que, se o leitor não prestar atenção, concorda com umas coisas horrorosas sem notar.

Os fluxos de consciência, que são a forma como os personagens se colocam, também são muito bem feitos, muito autênticos. Eles não são lineares e as vezes se intercalam com a realidade, mas sempre de uma maneira muito clara. Os momentos descritos também são muito ricos, com pontos de vista bem diversos: o que um acha um fato incrível, o outro acha o mesmo fato um constrangimento, um terceiro observa uma coisa que ninguém mais notou…

Em suma, a Fernanda Torres consegue ser absurdamente verossímil com os fatos da vida e deixar um sentimento agridoce e quase afetuoso com o leitor, como se essa também fosse a nossa história e nós fossemos ter, em algum momento, nosso quinhão de páginas para falar do nosso ponto de vista sobre os fatos. Isso porque ela pega histórias muito particulares e faz a gente se relacionar com a humanidade dos elementos universais desses fatos: nem todo mundo vai fazer parte uma orgia na vida, mas os sentimentos, as inseguranças e as expectativas presentes naqueles momentos são comuns a todas as pessoas. E ao final de todas as narrativas, a gente sente um ciclo fechado, as versões se confirmam entre si, mesmo sem sempre concordar, e ficam muito bem amarradas.

Virei fã número um dela, amor a centésima oitava vista. Antes, para mim, ela era como um amigo que você gosta, sabe que é ótimo, mas pelo qual não tem maiores sentimentos.  Depois de eu me derreter em elogios assim, espero que vocês se entusiasmem e comprem o livro porque vale muito a pena.

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2 comentários sobre “Dica literária – Fim, de Fernanda Torres

  1. Acabei de ler o livro agora e, de fato, transmitisse tudo que eu senti ao ler que não consegui expor ao indicar para uma amiga hahahaha É realmente muito bom como ela dá diferentes formas de narrativa para acontecimentos banais do dia-a-dia e entrete o leitor do início ao fim. São com fatos que ela vai se aprofundando na alma de cada um dos personagens e, ao fim, a gente se sente como um 6º elemento no grupo de amigos. Muito bom =)

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