Mostre-se

Assim que cheguei em Toronto (onde vivi de janeiro a julho deste ano), deparei-me com uma questão que persegue muitos intercambistas: “como farei amigos?”. Algumas pessoas já vão com alguns elos formados, o que não foi o meu caso. Durante a infância, fazer e desfazer amigos é muito simples, mas parece que crescer e ter dificuldades em dar o primeiro passo no ato de conhecer alguém são elementos diretamente proporcionais – quanto mais velho você vai ficando, mais difícil fica de aumentar seu ciclo de amigos (ou, em alguns casos, criar um). Eis que me falaram “ah, aqui no Canadá é complicado fazer amigos porque as pessoas são fechadas em seus próprios grupos, porém muitos são adeptos aos sites e aplicativos de relacionamento para esta finalidade também, então se quiser fazer amigos essa é uma solução”. Nunca fui muito fã destes meios, mas acabei criando conta em um e foi, de fato, o impulso necessário (vale salientar que um mês depois já havia excluído minha conta, hahaha).

Se alguém vier para o Brasil e me perguntar como fazer amigos, aconselharei: “se você não está fazendo nenhum tipo de curso ou aula, onde seria o lugar mais fácil para criar laços, vá para uma balada e fique bêbado”. Vá por mim, a chance de você sair com ao menos 3 contatos de desconhecidos em sua lista telefônica é muito grande. Claro que daí a você criar amizades verdadeiras é um longo passo, até porque vão surgir pessoas que você nunca mais vai falar na vida, pessoas que você só vai cumprimentar quando reencontrar, colegas de vida noturna, etc.

Mas o fato é que não existe regra geral. Existem inúmeros lugares e formas para se criar relacionamentos, que por ventura podem virar amizade. O sucesso dependerá da sua abertura em conhecer novas pessoas, dos lugares que você frequenta, da amplitude dos seus gostos, do seu perfil pessoal…

A ideia desse post não é ensinar como se fazer amigos, em parte porque não sei e, em parte, porque se soubesse não estaria aqui fornecendo esse tipo de informação, mas sim escrevendo meu livro que provavelmente viraria um best-seller. O que queria compartilhar foi uma reflexão que tive.

Não sou nem um pouco consumista, mas desde 2012 que criei um vício feio de comprar camisas pela internet. Mas não são camisas quaisquer, são camisas “nerd” que sempre tragam intertextualidade de elementos (Harry Potter + Pokémon, Rei Leão + Simpsons, Mario + Fórmula 1, etc.) em sacadas geniais1. O caso é que eu já perdi as contas da quantidade de pessoas que veio até mim para comentar que amou meu Pikachu espetando um garfo na tomada, meu Gremlin sendo impedido de passar no corredor do shopping porque o chão estava molhado após passarem pano ou meu alienígena criando mil utilidades para sua toalha2.

A camisa não estava ali por acaso: ela é um reflexo de algo do meu conjunto de interesses. A pessoa comentar a respeito também não é um acaso: aquilo também pertence ao conjunto de interesses dela. Qual é a etapa inicial para existir uma dinâmica de conversa entre pessoas? Interesses comuns. Foi então que percebi que cada vez que usava uma dessas camisas, eu não estava apenas me sentindo bem por usar uma camisa que gosto, mas mostrando ao mundo um pedacinho de mim, e abrindo espaço para que pessoas com gosto semelhante tivessem como compartilhar isso comigo. Claro que não são todas (talvez nem a maioria) das pessoas que olharem para a minha camisa e se interessarem que vão esboçar algo, mas alguém irá.

E aí cheguei à conclusão que talvez seja por isso que pessoas comprem camisas de bandas (investi numa linda de Móveis Coloniais de Acaju3, mas que hoje evito usar para o autógrafo não desbotar HAHAHA), de artistas (comprei um casaco de Michelle Visage4 para representar toda a realeza drag), com frases específicas, de determinadas marcas que tragam uma ideia consigo, etc.

Você pode estar lendo isto remetendo sua memória à diversos looks que você considera horríveis e se perguntando “esse menino tá realmente querendo que eu troque minha camisa florida linda por uma camiseta da Beyoncé só porque eu gosto dela?”. A resposta é: claro que não (embora Beyoncé sempre é uma boa pedida e fica linda estampando qualquer coisa). O que eu quis foi mostrar com um exemplo prático – no caso, a forma de se vestir – que você sempre pode se abrir um pouco mais para o mundo de modo a fomentar a criação de novos laços e estimular novas interações. É preciso apenas que você se deixe mostrar.

Como você vai fazer isso? Aí cada um sabe o que tem para oferecer e como expor seus interesses. Eu escolhi me comunicar por meio de minhas roupas, você pode se comunicar pela cor do seu tênis, formato da sua bolsa/mochila, tonalidade da maquiagem, pelo acessório que você usa na cabeça… E não para em trajes e acessórios, pois viver é comunicar, e cada gesto e ação tomados deixam um pouquinho de você naquele lugar.

Há inúmeras formas de se deixar à mostra (sem perder, é claro, o charme do mistério), basta encontrar a sua e tirar proveito do que – ou de quem – a vida trouxer para os seus caminhos.

1 Meus sites favoritos para compra das camisas que citei são o WootShirt, Teefury e RiptApparel (ou pelo menos eram, quando o dólar não estava nesse patamar monstruoso).

2 Se você não entendeu essas referências, don’t panic!

3 Nunca ouviu Móveis Coloniais de Acaju? Vá assistir o show do DVD deles e sentir um pouquinho da maravilha que eles levam para um palco.

4 Para quem não conhece: Michelle Visage, a juíza do melhor reality show da atualidade.

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