Gestando coisas

Oi gente, tudo bem?

Começando de verdade aqui no blog com este post, vim falar da necessidade da ‘chatice’ para uma vida felizinha.

Essa vidinha mestranda de vez em quando me sequestra em tempo integral, e o fato de eu reclamar de ter 500 coisas para fazer e quase nenhum tempo livre (pelo menos livre de culpa), pode fazer parecer que eu tenho algum chefe difícil, sempre cobrando coisas novas. Parte dessa história é que 350 dessas 500 coisas que eu tenho para fazer são de alguma forma opcionais e o pior chefe é aquele que sabe de todos os seus movimentos em tempo real: você mesmo. No meu caso, o tempo que eu passo em sala de aula é bem pouco, e a maior parte do trabalho acontece em casa. Essa distribuição geográfica das tarefas pode passar a impressão errônea que se tem muito mais tempo do que de fato se tem. Aí entra a necessidade da chatice.

Quando sua roupa de trabalho é um pijama azul com nuvenzinhas e o poder invisível do wi-fi está nos rodeando todo o tempo, pode ser bem difícil parar, sentar, e ficar em silencio fazendo algum trabalho focado. E é precisamente neste momento que a gente tem de fazer coisas que os nossos pais faziam, como horários de estudo, estabelecimento de metas a cumprir ou simplesmente se obrigar a fazer o que precisa ser feito.

Uma perspectiva das coisas que teve um impacto importante em mim para me ajudar ter mais foco foi a idéia de acumulação dos nossos atos. De alguma forma, a gente se torna o que faz repetidamente: o motivo pelo qual você não é maratonista, por exemplo, é porque não foi correndo, cada dia um pouco mais e um pouco mais rápido, mudou seu corpo e dedicou a sua cabeça de forma a ir ficando melhor naquilo, acumulando durante esses dias todos muitas horas de tempo investido. E o que quer que você faça bem é geralmente alguma coisa que te dá prazer e te leva a ir praticando aquilo sem tanto esforço. Se você toca algum instrumento muito bem, provavelmente no tempinho livre que você tinha, pegava o seu instrumento e ia persistindo e tentando aprender músicas novas, fazer aquele truquinho técnico difícil mas que você acha o máximo…de alguma maneira aquilo vira um assunto recorrente na cabeça e você vira um pouco aquele caminho de aprendizado.

Com o trabalho não haveria de ser diferente.  Aquele sujeito que você admira, que sabe muito sobre algum assunto ou que faz alguma coisa muito bem, ele se tornou um pouco a estrada para o conhecimento daquilo, estava sempre buscando conectar idéias anteriores, entender a lógica por trás e tentar ter idéias próprias. Porque – embora a escola as vezes não nos lembre o suficiente disso – o propósito de absorver doze anos de ensino básico e médio mais entre quatro e seis de ensino superior, é ser capaz de juntar idéias velhas de um jeito novo e/ou parir idéias novas. Mas antes de parir, tanto as idéias quanto as crianças, temos de gestá-las. E vamos combinar que este período de gestação é uma época bem pouco glamourosa, um processo longo de nove meses, cheio de sintomas, mas que gera coisas que a gente ama e guarda fotos na carteira, e cujas pequenas evoluções a gente conta para todo mundo. Ou seja, o processo frequentemente inconveniente de gestar a pessoinha que cresce no útero faz a grávida se tornar mãe. O mesmo se aplica para a gestação frequentemente chatinha de idéias e habilidades novas nas nossas cabecinhas.

Deixando as metáforas de lado, acumular horas de estudo, de trabalho, de viagem, de escrita, de experiência, de começar alguma coisa nova, tornam a gente aquilo que a gente investe nosso tempo e nosso esforço. E tendo certeza que o tempo investido não dá satisfação garantida ou a devolução do tempo que foi gasto, vale a pena repensar com o que nós gastamos o nosso. O tanto de nada que a gente investe o nosso tempo se acumula, e a gente se torna um pouco daquilo também – em tempos de smartphones e redes sociais, acho que todo mundo investe muito mais tempo do que o necessário em ‘nada’. Como diz o meu amigo Derek Muller no vídeo abaixo, a gente precisa de tempo para desenvolver personalidade, identidade. E eu tenho certeza que a identidade que a gente quer ver quando “olha no espelho” é uma cheia de fatos novos, pensamentos interessantes e algumas realizações, independentemente se elas são relativas a trabalho ou não. Mas essas coisas só acontecem se você se dispuser a ir atrás de experiências relevantes, alimentar a sua cabeça com idéias novas e puser a sua cara a tapa para tentar realizar alguma coisa, tomando inclusive o risco de não conseguir daquela vez.

Sim, se fosse fácil todo mundo fazia. E pelo número de comentaristas de internet no mundo, claramente tem muita gente sem tentar.

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